O programador está mais ameaçado que o pedreiro? O Paradoxo da IA
Um exercício sobre produtividade, IA e valor do emprego atual
Ouvi durante anos que a tecnologia eliminaria primeiro os trabalhos manuais.
Robôs substituiriam trabalhadores do campo, empacotadores, eletricistas e encanadores. Pode até fazer sentido mesmo, muita coisa na indústria e no agro é feita por robôs e máquinas automatizadas.
Há algum tempo, acreditava-se que as pessoas que trabalhavam estritamente com o intelecto estariam fora de qualquer risco, diferente de profissões ditas "mecânicas”, que seriam as primeiras a serem extintas. Isso não deixava de ser verdade.
A inteligência artificial parece estar virando essa lógica de cabeça para baixo.
Hoje, um único desenvolvedor de software bem equipado com IA (e com a intenção certa) consegue produzir o trabalho que antes exigia uma equipe. Códigos são escritos em segundos. Testes são gerados automaticamente. Interfaces inteiras surgem a partir de um simples prompt. O resultado é uma distorção momentânea de comportamento, especialmente em times de tecnologia. A demanda por profissionais juniores (técnicos) pode estar diminuindo justamente no setor que acreditava estar mais protegido pela revolução tecnológica.
Isso é um problema, que filosoficamente não vou debater muito, mas houve um tempo recente em que a maioria dos desenvolvedores de software estampava na mente: “somos super heróis."
Era a vingança nerd.
Obviamente, toda mudança radical vai doer um pouco. Os times de tecnologia que estão indo com muita sede ao pote em substituir profissionais por IA, têm sofrido ao entender que essa curva de mudança não é tão simples. Entendo que a pressão por resultados pode estar empurrando CEOs e CTOs a pararem de contratar e desenvolver times de engenharia, a fim de reduzir custos com mão de obra. Mas… em alguns casos o custo tem sido bem alto: algumas empresas não conseguem diminuir times no tempo certo e o custo com as ferramentas de IA tem aumentando significativamente. Vira uma cilada.
A Toolken.ai - que usei para testar recentemente - ataca exatamente esse problema das empresas não conseguirem administrar custos com IA.
Sem menosprezar o trabalho do engenheiro de software, que foi fundamental para a maior revolução da humanidade recente, mas hoje talvez estejamos precisando formar mais pedreiros, agricultores, marceneiros, pintores e cozinheiros, que são atribuições que a IA não vai conseguir replicar no curto prazo.
Talvez a reflexão do filme Interestelar nunca foi tão evidente, onde o fazendeiro Cooper se auto declara piloto (e engenheiro) e recebe na lata:
“É…neste momento o mundo não precisa de mais engenheiros. Não ficamos sem aviões ou televisores. Ficamos sem comida. O mundo precisa de agricultores. Bons agricultores, como você.”
O jovens, na sua maioria, não querem ir para o campo, trabalhar na construção civil ou fazer trabalhos braçais. Isso tem refletido no custo de mão de obra de serviços essenciais da população.
Há um verdadeiro apagão de mão de obra desse tipo no Brasil, e o sintoma vai aumentar. Para exemplificar melhor, basta observarmos o aumento do custo da mão de obra na construção civil de 2016 a 2026: mais que dobrou.
Os dados do INCC mostram que um pedreiro ganhava cerca de R$3.000 em 2016 e hoje ganha formalmente algo em torno de R$6.600. Essa evolução também pode ser reforçada pelo boom imobiliário das grandes cidades brasileiras, mas também porque essa mão de obra qualificada está escassa.
Para ilustrar melhor, advogados e engenheiros civis recém-formados, ganham em média de R$3000 a R$5,500 no Brasil. Fonte Portal Salário.
Investi em empresas de tecnologia, economia real (cafeteria) e mercado imobiliário: nenhuma dessas áreas está contratando de forma suave. Há um apagão de bons profissionais.
Essa combinação dos trabalhos manuais sendo muito valorizados (acho ótimo) com a avalanche da IA em profissões “intelectuais”, é um choque grande - que vai precisar se ajustar. Especialmente no Brasil, onde a produtividade é baixa (!!!) e o nível de auxílios pagos são astronômicos. Há um dado (mais aderente) que mostra que mais de 34 milhões de brasileiros recebem algum auxílio do governo.
Só o Bolsa Família tem 18 milhões ativos.
Se a IA se mostrar uma avalanche em diversas profissões e o cenário se manter parecido do ponto de vista de emprego, custo de capital e produtividade baixa, até consigo pensar que a maioria dos países vão precisar de renda mínima mesmo.
O Paradoxo da IA e o datilógrafo
Nos anos 80, o economista e Nobel Robert Solow observou que os computadores estavam por toda parte, mas os ganhos de produtividade não apareciam nas estatísticas. Surgia o chamado “Paradoxo de Solow”, que volta ao centro do debate agora com a inteligência artificial.
Eu não sei dizer se a IA vai finalmente quebrar esse paradoxo ou apenas repetir o passado. O que sei na prática é que um desenvolvedor que precisava de um dia inteiro para entregar uma funcionalidade agora consegue fazê-lo em minutos. Se ele usar o tempo restante para criar mais, estudar, empreender ou simplesmente aproveitar a vida, isso não é um problema.
Talvez o verdadeiro ganho de produtividade seja justamente devolver tempo às pessoas.
Entrei tardiamente nas plataformas de IA, acompanhei muito de perto, mas somente há alguns meses mergulhei e o choque foi grande mesmo: é impressionante o que se pode fazer em desenvolvimento de software, design e automação.
Fiz três projetos pessoais usando IA: um de saúde (expliquei aqui), um dashboard financeiro para uma das empresas que investi e desenvolvi uma ferramenta para automatizar recebimentos mensais que tenho.
Não usei um único engenheiro de software nessas experiências.
Recentemente conversei com médicos, advogados, fundadores de startups e todo tipo de profissional - amigos mesmo - e tentei entender o que ocorre em suas carreiras e qual seria o impacto disso em suas vidas.
Há uma grande chance mesmo de profissões desaparecerem.
Sei que soa prepotente, mas alguns profissionais ainda não entenderam o risco de escolher algumas profissões a partir de agora. Posso até fazer um paralelo com o datilógrafo. Para os mais jovens: antes dos computadores chegarem na casa das pessoas, uma das habilidades mais importantes era saber datilografar. Existia uma certificação para isso. A morte dessa competência (saber digitar cartas e documentos e máquinas de escrever) foi tão rápida que foi quase imperceptível. Simplesmente, virou história.

Conversando com dois médicos e com alunos de medicina de uma universidade referência no Brasil, a provocação que fiz sobre a capacidade que as inteligências artificiais têm na análise de imagens, diagnósticos entre outras competências, estarem em “xeque”. Isso é inclusive tema importante na academia. Radiologistas, por exemplo, poderiam ser comparados com contadores, advogados juniores, analistas, auditores fiscais…datilógrafos?
Quase tudo é digital e com um botão acionável - desde pedir comida até desenvolver um software simples e a ironia é que algumas profissões poderão voltar a ser ultra valorizadas: especialmente as que precisem de habilidade com as mãos.
Enquanto a robótica não avança na velocidade da IA, eu não consigo acreditar na morte do arquiteto, mas acredito na diminuição da importância dessa habilidade daqui para a frente. Do ponto de vista de construção civil, a inteligência artificial já permite projetar uma casa com muito afinco. Talvez o que falte mesmo é pedreiro no mercado…
A IA consegue escrever milhões de linhas de código por minuto, mas ainda não consegue reformar um banheiro, cuidar de um jardim, instalar um telhado ou construir uma escada.




